Halloween: tradição importada da América ou renascida em Portugal?

Halloween: tradição importada da América ou renascida em Portugal?

Halloween e Pão por Deus:

Halloween: tradição importada da América ou renascida em Portugal?

O Halloween parece uma celebração moderna, mas é tudo menos isso. O termo deriva de “All Hallows Eve”, em inglês “Véspera de Todos os Santos”, e mesmo esta expressão é relativamente recente, de há poucos séculos. Antes da Cristianização, os povos celtas da Europa ocidental assinalavam o Samhain, uma festa que marcava o fim do verão e o início dos dias mais pequenos, escuros e frios em que a Natureza parecia adormecida. Invocavam os espíritos dos mortos e acreditavam que nessa festa a fronteira entre o mundo real e o Além se esbatia, e que demónios e fantasmas circulavam entre nós; praticavam excessos em termos de comida e bebida.

Com o advento da Idade Média, a Igreja Católica tentou absorver os antigos hábitos e rituais pagãos e celtas. No século IX, o Papa Gregório IV instituiu o dia de Todos os Santos, enriquecido no século XIII com o dia de Todas as Almas que se transformou, em Portugal, no dia de Finados. A ligação com o mundo dos mortos e a celebração do início do inverno foram assim integradas nos rituais da Igreja, que gradualmente se impuseram aos costumes antigos, especialmente nos países de maior influência católica e menor influência pagã. Não é de admirar que, na maior parte do território português, o “Dia das Bruxas” fosse totalmente desconhecido até há pouco tempo (ou antes, esquecido.)

Contudo, de alguma forma os antigos costumes pagãos foram sobrevivendo na Europa “céltica”. Em Portugal, a região de Trás-os-Montes conserva os maiores vestígios da influência celta (a gaita de foles, os pauliteiros de Miranda, os caretos do Carnaval de Podence) e só aqui sobreviveu o antigo Samhain; a pequena aldeia de Cidões, em Vinhas, organiza anualmente a Festa da Cabra e do Canhoto. Já em Inglaterra e especialmente na Irlanda, nação céltica por excelência, os costumes eram tão arreigados que foram levados para os Estados Unidos pelos colonos e imigrantes, especialmente no século XIX.

Hoje em dia, parece coincidência que as crianças americanas vão de porta a porta a pedir “trick or treat” (doçura ou travessura) na noite de Halloween enquanto as portuguesas fazem o mesmo na manhã de Todos os Santos. Note-se que, embora não ameacem com travessura quem não der o “bolinho” (como é chamado na Estremadura), os meninos portugueses também têm a sua resposta: ”

“Esta casa cheira a alho,

Aqui mora algum espantalho.

Esta casa cheira a unto

Aqui mora algum defunto!”

Halloween e Pão por Deus:

Mas lá no fundo, as origens destes rituais são as mesmas: o antiquíssimo ritual celta e pagão que associa o fim do verão com o Outro Mundo e o Além.

 

Halloween e Pão por Deus: o cruzamento cultural português

Embora esteja a importar a tradição norte-americana, de algum modo Portugal está a cruzá-la com a sua própria. Os rituais do Pão por Deus e da visita aos cemitérios (no dia de Finados ou no próprio feriado de Todos os Santos) não estão a ser esquecidos; misturam-se com a organização de jantares temáticos e caminhadas noturnas na noite das Bruxas. As saídas noturnas em grupos são especialmente procuradas por adolescentes, dos 13 anos à maioridade, para os quais o passeio na escuridão é quase como um ritual de crescimento. Para as crianças até aos 12 anos, prevalece ainda a tradição matinal de ir de porta em porta; afinal, os mais pequenos devem deitar-se cedo.

Author: IRG Property

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